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fernando pessoa

 

Não: não digas nada!
Supor o que dirá
A tua boca velada
É ouvi-lo já


É ouvi-lo melhor
Do que o dirias.
O que és não vem à flor
Das frases e dos dias.


És melhor do que tu.
Não digas nada: sê!
Graça do corpo nu
Que invisível se vê.


Fernando Pessoa, in "Cancioneiro" 

Análise:

Trata-se de um poema ortónimo de Fernando Pessoa, datado de 5 e 6/02/1931. É um poema muito curto, mas intensamente dramático, como teremos oportunidade de ver, já a seguir. 



Quanto à temática do poema, penso que fala sobre o silêncio. Mas é curioso observar que, em fevereiro de 1931, a relação entre Pessoa e a sua namorada Ophélia Queiroz estava a terminar, para nunca mais ser retomada. A última carta entre os dois data de 21/03/1931, pelo que, datará de alguns meses antes (provavelmente fevereiro) a efetiva separação. 

Este poema poderá também estar influenciado por este fator. A mensagem é dirigida a um interlocutor que não é nomeado. Mas é claramente alguém que não é o próprio autor. E ele pede silêncio - aliás, é a abertura do poema: 

 

silencio



“Não: não digas nada! 
Supor o que dirá 
A tua boca velada 
É ouvi-lo já.” 

Isto demonstra a própria maneira como Fernando Pessoa opunha o sonho e a idealização do real ao próprio real. Ele sempre insistiu numa realidade sonhada que nunca poderia ser alcançada!

Com Ophélia ocorreu exatamente isto: ele sonhou muito a relação de ambos mas esse sonho nunca se aproximou da realidade. Pessoa não conseguia suportar ter de se relacionar com a família dela, de maneira formal, nem sequer oficializar o namoro de ambos. Era avesso a tudo o que saísse da sua idealização do que era a relação entre ambos. Não queria que o mundo se intrometesse na sua ideia do que era Ophélia para ele.

Desta forma podemos compreender este pedido de silêncio à sua "amante ideal". Se nada for ouvido, tudo pode ser verdade. O silêncio é o nada, mas é também - de certa forma - o tudo que não foi ainda dito: é uma forma de realidade perfeita, que permite tudo dentro de si mesma: 

“É ouvi-lo melhor 
Do que o dirias. 
O que és não vem à flor 
Das frases e dos dias.” 

Não ouvir nada é, assim, melhor do que qualquer coisa real. A realidade intromete-se na perfeição da ideia que Pessoa faz dela. E nessa realidade estão as suas relações pessoais, os seus amigos, a sua família e Ophélia: 

“És melhor do que tu. 
Não digas nada; sê! 
Graça do corpo nu 
Que invisível se vê.” 

O poema chega ao ponto de considerar que a ideia que Fernando Pessoa faz da sua "amante ideal" é melhor do que ela (mulher) alguma vez poderá ser. Assim, Pessoa também consegue anular qualquer hipótese da relação entre ambos pois nunca se poderá aproximar desta ideia de perfeição. Ao desejar a perfeição de uma ideia subjetiva, Pessoa defende-se de ter de oficializar os seus sentimentos por Ophélia, de se comprometer com ela. O seu sonho basta-lhe e esta é uma ideia triste de felicidade. Uma felicidade que nunca se tornará real.

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